quarta-feira, 14 de julho de 2010

Capítulo II

Manhã de sexta feira e Dona Cotinha está na cozinha preparando o café. Ela se surpreende ao ver Pedrinho de pé e pronto para a escola.
- Já acordado meu filho? Não é a toa que está chovendo. - Brincou sua mãe.
- Preciso chegar cedo hoje mãe. Respondeu Pedrinho pegando uma rosquinha de polvilho recém saída do forno. Vai ter palestra de primeiros socorros na escola e os bombeiros lá da capital vão dar aula pra gente.
- Mesmo? Isso é muito bom. Aproveita bastante então meu filho. Tenho certeza que vai ser muito interessante. Senta aí que o café está quase pronto. Pedrinho sentou-se e ficou pensativo. Não apenas na aula, mas em Denise, o anjo que não saia de sua cabeça. Ele não via a hora de chegar logo na escola, mas os quitutes de sua mãe eram irresistíveis.
Após o café, Pedrinho ensacou algumas rosquinhas, beijou sua mãe e saiu apressado. Próximo à escola, avistou os amigos sentados sobre uma cerca de troncos. Pareciam quatro urubus descansando do almoço. Riu sozinho.
- Olá pessoal! Lugarzinho bom este que vocês arrumaram pra conversar. Vamos entrar vai. Quem gosta de poleiro é galinha.
- Chegamos agora também. - Respondeu Joca, ignorando o comentário jocoso. - A gente só tava te esperando.
Todos pularam da cerca limpando as calças e seguiram Pedrinho que não queria dar bandeira, mas estava agoniado para ver Denise.
- Hoje é quinta-feira, pessoal. Portanto, não esqueçam do nosso compromisso no sábado à tarde lá no ranchinho. - Lembrou Joca, todo animado com a construção da cabana no meio do mato.
- Eu não esqueci não - Respondeu Pedrinho - Mas tem que ser depois das quatro da tarde. Tenho que ajudar o Neco a consertar o galinheiro. Pelo tamanho do buraco, só pode ser um bicho grande que tá rondando nossa casa pra roubar ovos e pintinhos do galinheiro.
Pedrinho ia continuar a história, mas um carro muito bonito estacionou em frente à escola naquele momento. Os quatro estavam próximos à entrada do colégio e, por curiosidade, ficaram olhando para ver quem saía do veículo. Os vidros eram muito escuros e quase não se enxergava nada lá dentro. A porta abriu-se e Pedrinho esticou o pescoço para olhar sobre os ombros de Joca, que estava a sua frente. Surpreso ele viu Denise sair daquele carrão. Pela outra porta, saiu seu irmão. Um Menino boa pinta e bem vestido, como haviam comentado na aula passada. Os dois irmãos entraram lado a lado, passando pelo grupo de amigos. Denise percebeu Pedrinho escondido atrás de Joca e sorriu num cumprimento direcionado a ele, mas sem diminuir o passo.
- Bom dia Pedrinho. Tudo bom?
Pedrinho prontamente respondeu e ficou olhando ela sumir entre os outros alunos. Pézão brincou com ele.
- É isso ai garanhão. Parece que finalmente apareceu uma maluca que vai te ajudar a perder a boca virgem, hein?
O riso foi geral entre os quatro colegas, mas desta vez Pedrinho entrou na brincadeira.
-Quero ver é você conseguir beijar alguém meu amigo. Só se ela subir em cima desse pezão aí.
Farelo também entrou na brincadeira antes que sobrasse alguma para ele.
– Então não vou ter problema nenhum. O meu beijo deve ser bem docinho.
- Com essa cara suja de açúcar, o máximo que você vai conseguir é beijar uma formiga daquelas da bunda grande. - Disse gordo caindo na gargalhada.
Pézão fechou o sorriso e rebateu:
-Olha só quem tá falando. O único bunda grande aqui é você.
Todos já estavam em lágrimas e, embora as brincadeiras sempre se referissem aos defeitos de cada um, todos levavam na maior esportiva. O sinal para entrar nas salas tocou, e
cada um pegou seu rumo. Em sala, Denise e Pedrinho trocaram olhares, mas não palavras. A professora Carmem entrou em sala, acompanhada de dois bombeiros militares.
- Todos sentados em seus lugares, por favor. Temos apenas esta manhã e o tempo é precioso. Como eu havia comentado com vocês ontem, teremos uma palestra sobre primeiros socorros com o Sargento Charles e o Soldado Ronald. Eu espero que todos vocês tenham paciência e atenção a tudo que for transmitido por eles, porque será cobrado posteriormente. Senhores. A classe é de vocês.
O Sargento Charles agradeceu e depois das apresentações, iniciou a palestra.
– Pessoal. Infelizmente o tempo é curto e não vai ser possível repassar tudo que queríamos para que adquirissem conhecimentos mais aprofundados da matéria, mas as informações que receberão hoje serão de suma importância no dia a dia de cada um de vocês. Vamos começar então? - Perguntou batendo palmas para buscar a atenção de todos.
- Primeiramente vamos aprender como se verifica o pulso de uma pessoa. Quando falamos em pulso, não estamos nos referindo somente a parte que fica entre a mão e o ante-braço. Existem vários pontos, onde podemos verificar o batimento cardíaco.
-Vamos nos concentrar apenas nos principais. Cada um de vocês pega um colega para parceiro.
- Vamos lá pessoal. Rapidinho. - O Soldado Ronald se manifestou para agilizar a aula.
Pedrinho, ao ouvir o pedido do Bombeiro, ficou nervoso, mas não tinha como fugir. Ele olhou para Denise e sorriu amarelo. Sem pensar falou:
- Somos parceiros então?
- É, acho que sim. – Respondeu ela, com um sorriso.
Pedrinho queria se enfiar num buraco pelo que acabara de falar. Pensou. “Ai meu Deus! Porque não fiquei calado. ‘Somos parceiros então’. Aff. Que imbecil.”
- Agora fechem uma das mãos e estendam apenas dois dedos. O pai de todos e o fura bolo. Encostem as pontas no pulso do parceiro, logo abaixo da base do dedão e façam uma leve pressão. - Falou o sargento, mostrando como deveria ser feito com o auxílio do soldado Ronald. Pedrinho passou a mão na calça por estar um pouco suada e a esticou para Denise. Esta por sua vez, segurou a mão de Pedrinho, que deu estremeceu ligeiramente ao seu toque. Ela o olhou sorridente e perguntou. - Algum problema?
- Não. Claro que não. Pode continuar. - Pedrinho respondeu mecanicamente, mas sabia que tinha algo estranho acontecendo com ele. Sua respiração estava pesada e o coração parecia um bumbo batendo na boca.
- Nossa! Como seu coração tá batendo forte. - Comentou Denise, tentando puxar papo. Deve ser a comida saudável daqui.
- Vai ver que é. - Pedrinho respondeu num fôlego só para não dar bandeira.
Com o transcorrer da aula, a voz doce e a simpatia da menina foram aos poucos acalmando Pedrinho. Ele efetuou o mesmo procedimento em Denise e, felizmente, aquela sensação de pânico inicial foi desaparecendo.
- Bom gente. Continuou o Sargento. Esse ponto que vocês acabaram de conhecer, chama-se pulso radial. Repitam por favor. “PULSO RADIAL“. A sala inteira respondeu num coro cheio de energia. Todo mundo riu. Inclusive os Bombeiros.
-Muito bem. - Continuou Charles. - Vamos para o próximo ponto que denominamos carotídeo. Este fica no pescoço logo abaixo do queixo.
Enquanto Charles falava, o Soldado Ronald demonstrava.
- Agora é sua vez de começar. - Denise falou à Pedrinho, chegando mais perto e levantando o queixo. Pedrinho a tocou e ao sentir aquela pele macia em suas mãos, foi acometido novamente com aquele friozinho na barriga. Desta vez não se assustou. Procurou curtir ao máximo aquele momento, fantasiando um pouco. Contudo, sua viagem foi interrompida por um HAN HAN do Sargento Charles que, em tom de brincadeira, chamou a atenção de Pedrinho.
- Você está muito rápido, meu amiguinho. Nos ainda não chegamos ao ponto facial.
Então Pedrinho se deu conta de que estava com a mão no rosto de Denise e não no pescoço como foi orientado. Rapidamente a recolheu e todos começaram a rir da cara de bobo que ele fez. Denise não riu. Ficou olhando séria para Pedrinho. Ela poderia ter evitado essa atitude um tanto inoportuna, mas por alguma razão não o fez. O toque suave e carinhoso da mão dele em sua face foi confortante, com gostinho de quero mais.
Mesmo vermelho feito um Pimentão, Pedrinho falou.
- Desculpa. Eu me distraí. Isso não vai acontecer novamente.
Denise, para amenizar o embaraço de Pedrinho, apressou-se em fazer um comentário amigável.
- Então eu acho que vou ter que procurar um outro parceiro.
Pedrinho arregalou os olhos sem dizer nada. Denise deu uma leve risadinha e completou:
- Vamos continuar assistindo a palestra que tá muito legal. Tô vendo que vou gostar muito daqui.
Pedrinho olhou para frente, fechou os punhos e em pensamento, pulou de alegria.
A palestra dos Bombeiros demorou umas duas horas e, mesmo com os olhos grudados em Denise, Pedrinho não deixou de assimilar tudo que foi explicado. O sinal tocou, indicando o término da aula.
.- Um dia ainda dou uma tijolada nesse sinal. - Pedrinho resmungou baixinho.
O ano já estava acabando e ele ainda não tinha se acostumado com aquele sinal infernal. Denise achou graças e comentou:
- Eu também levei um susto. Até parece alarme de incêndio.
Os dois se olharam fixamente por um momento e Pedrinho desconcertado quebrou o silêncio.
- Bom... Até segunda então. Bom final de semana pra você.
- Pra você também. - Respondeu Denise arrumando suas coisas.
Desta vez Pedrinho saiu primeiro. Outras coisas também muito importantes ocupavam sua cabeça. Afinal, era no dia seguinte que começariam a construção da cabana. Os outros o esperavam no pátio da escola quando ele chegou. Todos estavam olhando em sua direção, mas não para ele. Pedrinho achou estranho e virou-se e deu de cara com Denise vindo apressada
- Ainda bem que você ainda tá aqui, Pedrinho. – Disse ela sorridente. -Será que você pode me emprestar seus cadernos este final de semana? Preciso me inteirar das matérias.
Pedrinho sabia que os amigos gozadores estavam observando. Então manteve-se sereno, sem dar bandeira pelo susto que levou.
- Claro - Respondeu ele. - Não tem nada de importante pra este final de semana. Pode levar sim. Se você tiver algum problema pra entender a letra ou a matéria, pode passar na minha casa. Eu moro no fim da rua depois do armazém do Juca. É só perguntar pela casa do seu José.
- Obrigado. – Disse Denise. - Se eu precisar, eu apareço mesmo. Até segunda então.
Ela virou-se devagar e saiu graciosamente em direção ao carro que a aguardava na porta da escola. Todos ficaram olhando ela sumir no interior do veículo. Gordo quebrou aquele silêncio com uma perguntinha cretina.
- Hei. Quem é o tal seu José que você falou?
- Tá de gozação é? Meu pai. Às vezes eu acho que você tem uma abóbora no lugar do cérebro meu amigo. - Pedrinho falou com ar de contrariado.
- Eu acho que pelo tamanho da cabeça, só pode ser uma jaca. Farelo aproveitou o gancho para zoar um pouco do amigo que costumava cometer gafes hilariantes.
- Pode parar por ai Farelo. Todo mundo conhece o pai dele pelo apelido de “Seu Pitanga”. Não falei nada de mais.
- Ele tem razão Farelo. Pedrinho falou defendendo o amigo. Na hora eu acho que fiquei com vergonha de falar. Foi bobagem eu sei. Além do mais, acho que ela só estava sendo gentil. Duvido muito que apareça lá em casa.
Não se engane com as mulheres apaixonadas meu amigo. Joca falou com ar de conhecedor do assunto. Eu vi o modo com que ela te olhava. Os olhos dela brilhavam e não desgrudavam de você. É pessoal. - Continuou Joca em tom de gozação. - Acho que nosso amigo vai se dar bem com a princesinha.
- Não diga bobagens, Joca. Até parece que uma menina linda daquele jeito, vai dar mole para um caipira como eu. Ainda mais vinda de cidade grande.
- Bem se vê que você não entende nada de mulheres mesmo né? - Joca censurou Pedrinho por se menosprezar.
- Olha só quem fala. - Pezão se manifestou. - Eu te vejo cercado de meninas todos os dias aqui na escola, mas nunca ficou com ninguém.
- É verdade. Eu também nunca vi. Farelo falou reforçando o comentário de Pezão. Vai ver que o Joca é "bevesão" também e tá aí, cheio de nove horas pra cima da gente.
Gordo que estava quieto até aquele momento, teve que largar uma das suas piadinha fora de hora.
– Vai ver que o Joca é frutinha. - Falou caindo na gargalhada sozinho, mas quando percebeu que somente ele achou graça da brincadeirinha venenosa, seu sorriso foi desaparecendo devagar. Gordo conhecia muito bem aqueles olhares de censura dos amigos e tratou de se redimir rapidamente.
-Calma gente. Eu tava brincando. Só porque ele nunca ficou com nenhuma menina não que dizer que ele seja um goiabinha. Certo pessoal? A resposta encorajadora que Gordo esperava não veio, sendo que todos partiram pra cima dele.
- Eu vou te dar o goiabinha seu João bolão. Joca falou se posicionando na frente do pelotão de ataque. Gordo arregalou os olhos e pensou. “Ai Jesus. To ferrado”. Ele não conseguiu correr nem dez metros. Joca o pegou, mas foi preciso os quatro para segura-lo tal era o desespero do coitado. Naquela bagunça toda, as calças do Gordo foram abaixando e a cueca apareceu. Pedrinho quando viu aquilo, desatou a rir. – Olha só isso gente. Ele ta usando uma cuequinha de coraçãozinho. Imediatamente Pezão a agarrou e Gordo prevendo o que ia acontecer começou a gritar desesperado.
- Não, por favor. Eu faço o que vocês quiserem, mas larguem a minha cueca. Foi presente da minha mãe.
O quarteto não se sensibilizou com as súplicas da vítima e lhe deram um belo e reforçado chá de cuecas, que infelizmente acabou rasgando. Pedrinho desatou a rir olhando aquele monte de pano nas mãos de Pezão.
- Hi! Foi mau, Gordo. - Pezão tentou se desculpar. - Pelo menos você vai poder vender o que sobrou para fazer uma vela de barco bem original.
Todos caíram em riso, menos é claro a vítima do atentado.
–Quero ver agora o que vou dizer pra minha mãe. Essa brincadeira vai me custar um final de semana de castigo pelo menos.
- Calma meu amigo. - Joca falou tentando consolá-lo. - A gente te livrou de pagar um mico se alguma menina visse essa cuequinha ridícula.
- Tudo bem. - Disse Gordo. - Eu não gostava muito dela mesmo, mas tinha que usar.
Foi presente da minha mãe mesmo. Mas vocês não perdem por esperar. Vai ter troco.
Joca riu da cara desgostosa do amigo e lhe estendeu a mão para levantar-se.
- Vamos embora, que amanhã à tarde temos encontro lá no ranchinho. E prá gente não ficar tremendo de medo com o que você possa aprontar, vamos te dar meia dúzia de cuecas novas.
- Engraçadinho. Poupe-me de seu sarcasmo barato, mas as cuecas e vou aceitar sim com certeza.
Pedrinho despediu-se deles ali mesmo na porta do colégio porque era o único que morava em direção contrária. Os outros seguiam juntos fazendo bagunça pela estada. Ele chegou em casa, largou o material escolar e foi dar uma olhada no galinheiro pra ver se estava tudo bem com sua amiguinha. Joconda. Ela era uma galinha que não deu certo. Nasceu com problemas e não teve um desenvolvimento satisfatório e só conseguiu sobreviver devido aos cuidados de Pedrinho, que teve muita pena dela. Por ter a metade do tamanho das outras galinhas e uma perninha manca, ela tentava compensar com ferocidade. Ela era pequena e folgada, como ele costumava dizer. Mas estava sempre apanhando das outras.
Logo ao chegar, o menino percebeu os buracos enormes na cerca e na tela do galinheiro, como seu irmão havia falado. Neco fez uma amarração provisória com cordas e madeiras até que se pudesse efetuar os reparos. Zico aproximou-se devagar, assustando Pedrinho, que estava agachado com o pensamento longe.
- Ô Zico, não faz mais isso não. Quer matar seu irmão de susto? Pedrinho falou num tom carinhoso com o irmão.
- Desculpa. Eu só vim te chamar pra almoçar. A mãe que mandou.
- Eu que devia pedir desculpas, maninho. O Neco falou que pode ter um bicho grande por aqui rondando o galinheiro. Por isso me assustei com você, vindo correndo por traz de mim.
- E tem mesmo. - Zico falou, olhando fixamente as aves que ali estavam. – Elas tão com muito medo, mano.
Pedrinho o olhou intrigado, mas não levou o sério.
– Que bom seria, se a gente pudesse entender os animais, né? Seria tudo mais fácil.
- Eu entendo mano. - Zico parecia não estar brincando. Então Pedrinho perguntou. Ainda levando na brincadeira:
– Quer dizer que meu maninho esperto conhece a língua dos animais. Falou afagando os cabelos de Zico.
- Não. Não falo. Mas posso sentir o medo nos olhos deles. - Zico respondeu com o semblante sério e um olhar sem direção.
Pedrinho preocupou-se com o que acabara de ouvir.
– Escuta Zico. - Disse ele. - Muito bacana isso que você ta me contando, mas vamos manter em segredo, combinado?
Zico concordou com um leve sorriso.
- Tá bom, mano. Sei que você também não acredita em mim, mas vou concordar com você. Quem acreditaria num maluco como eu?
- Nunca mais repita isso. – Disse Pedrinho rispidamente, sacudindo-o pelos ombros. - Você não é maluco ou coisa parecida. Nunca mais diga uma besteira dessas porque vou ficar bravo com você entendeu?
Zico não esboçou nenhuma reação, apenas sorriu novamente.
– Obrigado mano. Você é o melhor irmão do mundo. Nós gostamos muito de você.
- Nos quem? - Perguntou Pedrinho, olhando a seu redor.
- Eu e a joconda. - Respondeu Zico, olhando para aquele projeto de galinha que os observava de perto.
Pedrinho soltou uma gargalhada abraçando-o fortemente.
- Ah! Meu irmão. Eu também gosto muito de você... E é claro. E de você também, joconda. - Pedrinho falou, coçando a cabecinha daquela “desminlinguida”, apoiada numa perna só.
- Agora vamos almoçar que a mãe já deve tá uma fera com a gente. Amanhã eu e o Neco consertamos o galinheiro.
Pedrinho tinha verdadeira adoração por aquele irmão e faria qualquer coisa para não vê-lo magoado, principalmente se souberem que ele anda vendo ou ouvindo coisas fora da realidade. O resto do dia transcorreu normalmente e ao anoitecer, Pedrinho recolheu-se mais cedo, haja visto que sábado seria um dia cheio e cansativo, porém aguardado com ansiedade pelo quarteto.
Já passavam das oito horas e o dia amanheceu cinzento com muitas nuvens escuras. Pedrinho dormia tranquilamente. Nos feriados e finais de semana, Dona Cotinha deixava todo mundo dormir um pouco mais. Ela acordava cedo por causa dos afazeres domésticos e do trato com a criação. Eram muitas galinhas patos e marrecos que precisavam ser alimentados diariamente. Dava muito trabalho, mas ela adorava. Pedrinho também ajudava nas tarefas, principalmente com as galinhas.
O relógio da parede acusava oito e trinta. Quase todos estão na cozinha aguardando pacientemente que as panquecas e bolinhos de banana que Dona Cotinha estava preparando. O único que ainda estava no mundo dos sonhos era Pedrinho. A luz do sol desta vez não veio fazer seu trabalho matinal, então Dona Cotinha comentou, sem se dirigir a alguém em especial.
- Por que o Pedrinho ainda não levantou? Alguém vai lá acordar ele
- Pode deixar que eu vou, mãe. - Ritinha ofereceu-se, porém com carinha desolada. - Não quero ter o desprazer de ficar amarrada com aquele impertinente. - Resmungou baixinho.
- Por favor, minha filha. Dá uma trégua, né? Essa briguinha de vocês dois já tá perdendo a graça. – Disse Dona Cotinha, tratando de colocar um freio naquela querela, prá ter um pouco de sossego no fim de semana.
- Aleluia! - Disse Neco, brincando. - Até que enfim eu vi a senhora colocar ordem na casa com esses dois galinhos de briga.
Dona Cotinha também riu e brincou.
- Olha o respeito que eu ainda posso te dar umas boas chinelas na bunda, além de ir pro trabalho só com um cafezinho preto.
- Isso não. -Disse Neco. - Umas chineladas eu agüento, mas não suportaria sair daqui sem os seus bolinhos, mãezinha.
- Tá bom, tá bom. Já me convenceu, seu guloso. - Respondeu Dona Cotinha, dando um beijo no rosto de Neco. Ritinha por sua vez, nem se deu ao trabalho de bater na porta do quarto. Foi logo entrando.
- Levanta dai monte de preguiça. A mãe tá chamando pro café. – DisseEla, em voz alta e abrindo a janela abruptamente, de propósito para irritar o irmão.
Pedrinho que estava com a cabeça sobre as cobertas, resmungou.
– Ai meu Jesus Cristinho. Eu tava sonhando com uma princesa e acordo vendo uma bruxa. Precisava me acordar desse jeito, sua chata? Eu tava num sonho muito bom. Tinha que ser você pra estragar tudo.
Ritinha havia decidido não bater boca antes de entrar no quarto, mas ficou irritada e rebateu os insultos de seu irmão.
– Então meu príncipe do Paraguai. Vai tratando de acordar, porque com essa cara de fuinha que você tem... O mais perto que vai chegar de algo parecido com sexo feminino, é aquela galinha horrorosa que você chama de joconda.
Pedrinho saltou da cama e a agarrou pelos braços, mas antes que começassem o combate, Neco entrou no quarto perguntando.
-Vocês vão demorar muito para o café ou querem um convite especial? Pera ai! - Neco exclamou. - Porque estão agarrados? Por acaso estavam se pegando novamente?
- Não Neco. Claro que não. – Pedrinho apressou-se a responder. - O final de ano tá chegando e ela tava me ensinando uns passos de dança.
Ritinha ficou incrédula com a desculpa esfarrapada, mas não tinha outra saída. Concordar seria menos catastrófico do que ficar amarrada com seu querido e amado diabinho. Digo. Irmãozinho.
- Tá bom. Me engana que eu gosto. Melhor abrirem bem os olhos, porque os meus estão grudados em vocês dois. Agora andem logo. Vamos pra cozinha que a mãe não é empregada prá ficar esperando a boa vontade dos dançarinos. – Disse Neco, saindo do quarto.
Ritinha largou rapidamente o irmão, ridicularizando a desculpa nada inteligente que ele deu.
- “Ela tava me ensinando uns passos de dança, Neco”. - Repetiu a frase fazendo careta. - Só podia ter saído de uma cabeça de tartaruga mesmo.
Pedrinho desta vez não revidou as provocações da irmã. Rapidamente calçou os chinelos e foi pra cozinha, seguido de Ritinha que o acompanhou de perto fingindo que estava dançando, mas Pedrinho fez vista grossa e também fingiu não ter percebido. Seu humor mudou rapidamente quando viu aquelas guloseimas sobre a mesa. Ele adorava bolinho de bananas.
– Bom dia. - Cumprimentou arrastando uma cadeira para sentar-se. A mesa como sempre, estava farta graças aos dotes culinários de sua mãe. Pouca coisa se comprava nomercado. Enquanto comiam, Neco comentava sobre os estragos no galinheiro que precisava de reparos.
-Depois do café vê se não desaparece. Vou precisar de você pra me ajudar. Disse ele áPedrinho
– Claro Néco. -Pedrinho prontamente respondeu. Não combinei nada com meus amigos por causa disso. –Falou rezando para que tudo terminasse antes das dezesseis horas. Não podia chegar atrasado na reunião do grupo.
-Neco fez um meneio de cabeça num gesto de aprovação.
Após o café, os dois seguiram direto para o galinheiro.
– Va lá no rancho e me traga pregos, serrote e martelo. -Neco pediu a Pedrinho. - Eu vou pegar as tábuas e o resto dos materiais que a gente vai precisar.
Ele não contou tempo. Atendeu de imediato. Afinal, quanto mais rápido eles acabassem, mais cedo seria liberado. Ao retornar, deparou-se com Néco agachado coçando o queixo muito sério.
– O que foi ? Não vai da pra arrumar? -Pedrinho perguntou.
– Vai sim, mas não é isso que ta me preocupando. -Ele respondeu ainda muito sério. -Essa cerca era bem reforçada e pelo tamanho dos buracos,  só pode ter sido um bicho grande que tá rondando por aqui.
Pedrinho preocupou-se. Se fosse realmente um bicho, a primeira a dançar seria a pobre
da joconda. A coitada não teria a mínima chance com aquela perna manca.
– Então vamos reforçar mais ainda esta cerca. – Disse ele lembrando o que Zico havia lhe confidenciado sobre o medo que ele viu nos olhos das galinhas. Balançou a cabeça remungando – Bobagem.
Neco perguntou. – O que é bobagem?
-Nada não. To pensando alto. - Pedrinho respondeu ao mesmo tempo em que serrava uma tábua, mostrando intimidade com as ferramentas. Os trabalhos finalmente ficaram prontos e os dois limpando as mãos umas nas outras, aprovaram.
– Ficou muito bom e você leva muito jeito Pedrinho. Gostei de ver. -Neco elogiou o
empenho do irmão.
Pedrinho sorriu agradecido e recolheu as ferramentas para guardá-las, apressando-se. Já passava das dezessete horas. Estava uma hora atrasado. Ele Tomou um lanche que Dona Cotinha havia preparado para os dois e disparou pela praia. Não queria falhar com os amigos.
     O Mar estava calmo e com uma cor esverdeada. Algumas nuvens cinzentas no céu indicavam que o tempo estava para mudar. “Tomara que não chova no final de semana” Pensou Pedrinho. Quando finalmente chegou ao ranchinho, avistou os quatro amigos aguardando a sombra de um abacateiro.
- Desculpa a demora pessoal. O trabalho lá em casa demorou mais do que eu esperava.
- Nos também chegamos a pouco. Só tá faltando o Gordo. - Respondeu Farelo.
- Daqui a pouco ele chega. Comentou Pezão. Se deixar, ele come até os enfeites de flores sobre a mesa. - Riu baixinho.
- Bom, vamos começar sem ele mesmo. Alguém teve alguma boa Idéia pra gente começar? - Perguntou Joca ao grupo.
Pedrinho antecipou-se.
- Bom pessoal. Temos que ser práticos. Precisamos usar o máximo possível  materiais da própria natureza pra não dar tanto trabalho.
– O Pedrinho tem razão. -Joca concordou. Podemos usar bambus pra armação e folhas de bananeira pro telhado. Lá perto da casa do Zoião tem bastante.
- Mas a casa dele fica a umas Duas horas de caminhada daqui. -Disse Farelo. Não é meio longe não?
- Você ta parecendo o bicho preguiça do Gordo. Já fizemos caminhadas mais longas que essa. -Pezão respondeu censurando o amigo.
- Vamos lá gente. Nem bem começamos e já tem gente desanimando. Assim não da né. -J oca retalhou. Vamos lá agora só pra dar uma sondada no local.
- Tá certo. Vamos nessa então. Disse Farelo. Se a gente for rápido, vamos ta de volta antes do
escurecer.
     O Grupo já estava a caminho quando ao longe avistaram o gordo. Vinha ensaiando uma corrida meio desajeitada pela areia da praia . Em uma das mãos trazia um pacote. Provavelmente algo para comer pelo caminho.Na outra, uma vara de bambu.
- Desculpa aí. Minha mãe não me deixou sair sem antes tomar café. - Respondeu ofegante antes que lhe cobrassem seu atraso. - Onde vamos?
- A gente tá indo ver o local pra fazer nosso Quartel general - Respondeu Pedrinho.
- Quartel? Que Quartel? Achei que íamos pescar.
Todos o olharam com cara de censura. Pedrinho somente balançou a cabeça, mas não disse nada, apressando o passo seguido pelos outros.
- Calma ai pessoal. Devagar. Eu tava só brincando.
     Após alguns minutos de caminhada, todos conversavam alegremente discutindo assuntos diversos. Chegaram ao local antes do previsto. Gordo como sempre, reclamou do cansaço.
-Caramba pessoal! Esse barraco não poderia ser mais perto não. Meus pés estão me matando.
- Eu também to cansado. -Respondeu Pedrinho. Mas vai valer a pena. O local e bem legal. Tem quase tudo que precisamos além de perto ser do rio. Poderemos pescar sem se afastar muito da cabana.
Enquanto os amigos trocavam idéias, Joca observava a área ao seu redor. Notou que o barranco ali próximo, apresentava uma fissura muito interessante. Acabou tendo uma idéia de momento.
- Ei pessoal. Venham aqui dar uma olhada. -Disse ele dirigindo-se ao pé do morro. O que vocês acham da gente construir aqui nesse barranco?
Todos o olharam intrigados.
Joca continuou. - Escutem só. Se a gente acertar as laterais com pás, enxadas e nivelar o piso, vamos poupar trabalho. As paredes já vão ta prontas. Ai é só cobrir. O que vocês acham da idéia?
- Sei não Joca. -Pedrinho manifestou-se coçando a cabeça. A idéia parece boa, mas eu não ia me sentir muito bem dentro de um buraco.
- Eu concordo com o Pedrinho. Resmungou Gordo. Não vou entrar ai não. Não tenho vocação pra tatu.
- Se você fosse um tatu meu amiguinho, seria um tatu bola. -Falou Pezão caindo na gargalhada.
- há há há. To morrendo de rir seu bobão. Retrucou Gordo.
Joca continuou insistindo na sua idéia.
- Vamos lá pessoal. Não vai ser tão difícil. O barro e macio e vai dar pra cavar sem muito esforço. Vocês vão me agradecer depois de pronto. E então? Vamos encarar essa
juntos?.....
Pedrinho quebrou o breve silêncio. -Ta legal, eu topo. Mas se começar a aparecer problemas, a gente volta pro plano original certo?
Joca concordou rapidamente interpelando os outros.- Bom. Quem ta com a gente então?
- Pezão?
- To dentro também.
- Farelo?
- Vamos nessa.
- Gordo?....Mais um breve silêncio.
-Gordo? To falando com você. -Insistiu Joca
- Eu? Há sim claro. Não vai adiantar eu dizer que não né. Vamos nessa então e seja o que Deus quiser.
- Então ta combinado. -Disse Joca contente por terem aceitado seus argumentos. Vamos voltar que já ta tarde. Amanhã cedinho todo mundo no ranchinho com ferramentas pra gente começar a obra.
- Melhor a gente se mandar mesmo. -Disse pezão. Daqui a pouco vai escurecer e não trouxemos lanternas.
O grupo apressou o passo no retorno, trocando idéias pelo caminho.

Um comentário:

  1. Pelo visto está entre o realismo e o romantismo, eu me arriscaria dizer que segue a mesma linha de Machado de Assis.

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